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Terra a Terra

Residências e formações

Dar a vez a quem tem voz

Módulo Informativo sobre Projectos

Não há dois projectos de arte participativa iguais. Mais, um mesmo projeto pode assumir formas diferentes ao longo do tempo, de edição edição, se alcançar essa longevidade, ou até no decorrer de uma mesma edição.

Acima de tudo, é praticamente impossível e, até certo ponto, indesejável saber os contornos exactos de um projeto deste cariz, antes de começar.

A principal razão para que assim seja é o facto de implicar um processo co-construído entre todos na comunidade (incluindo o artista que o propõe), que assenta na comunicação e na reciprocidade, na abertura e no interesse mútuo, e cujo resultado é reflexo da pluralidade de vozes que se debruçam sobre uma ideia inicial e contribuem activamente para a sua transformação.

Ao longo do processo e no melhor dos cenários, espera-se que este conjunto de vozes se transforme e combine, criando uma identidade e uma memória colectiva que se escreve e reescreve a várias mãos.

Pela sua natureza dinâmica, contextual e sinergética, não há, nem se pretende, uma fórmula para um projecto de arte participativa.

No entanto, distinguem-se características de projectos (algumas das quais serão exploradas de seguida) que poderão orientar as escolhas dos primeiros esboços de iniciativas desta natureza (ver os Modelos de Acção em Comunidade).

As diferentes combinações de características resultaram em inúmeros exemplos de práticas inspiradoras nesta área. A OSF dá destaque a iniciativas a operar, actualmente, em Portugal, que fazem a diferença (consultar o Directório de Projectos).

Características de Projectos

Objectivo

Os projectos poderão ter objectivos de natureza diversa. Essencialmente, o enfoque poderá ser o processo em si, o seu resultado, ou uma combinação de ambos. Por outras palavras:

  1. Processo – valoriza-se, sobretudo, a experiência colectiva que a atividade proposta implica, podendo resultar ou não num produto, por sua vez material ou imaterial. Por exemplo, a partilha por parte de residentes num lar de terceira idade da activação da memória comum através do repertório de música cantada, reflecte um objectivo de co-construção de significado ao longo do tempo.
  2. Resultado – considera-se importante o produto, material (e.g., objecto, composição) ou imaterial (e.g., actividade performativa), que resulta da atividade proposta. Exemplo disto é um projecto que oferece concertos comentados num local de convívio de uma comunidade, com o objectivo de fomentar o espírito de pertença à comunidade através dessa experiência (produto imaterial).
  3. Combinação de processo e resultado – visa-se uma experiência colectiva que é reforçada pela existência de um ou mais produtos finais, pelo facto de evocarem a experiência vivida. A título ilustrativo, consideremos a pintura conjunta de um mural, cuja experiência empodera a comunidade criadora, ao mesmo tempo que se produz um produto material.
Comunidade

A escolha da comunidade com a qual colaborar no âmbito de um projecto de arte participativa reveste-se da maior importância, uma vez que esta comunidade será a base do projecto em si. De uma forma geral, as comunidades poderão ser constituídas por:

  1. Elementos que já integram ou conhecem os meios tradicionais das artes;
  2. Elementos que pertencem a círculos distintos e cuja experiência no projecto seria um primeiro contacto com este mundo.

Independentemente da escolha da comunidade, num projecto deste cariz importará conhecer deliberada e aprofundadamente o contexto social que esta representa para estabelecer as condições necessárias para uma colaboração positiva e autêntica com os interlocutores. De igual forma, será essencial manter presente que os vários participantes – quer sejam ou não artistas formais ou detentores de experiência na área – deverão ter os mesmos direitos em todo o processo.

Local

Os projectos de arte participativa poderão desenrolar-se em mais do que um espaço e em tipos de espaços diversos, como:

  1. Locais de arte – galerias, museus, entre outros espaços que estejam associados à experiência artística e preparados para o efeito;
  2. Não locais de arte – incluem a restante esfera pública, como a rua, as escolas, os hospitais, as prisões, as bibliotecas, etc. Pela sua reduzida associação à esfera das artes, o uso destes espaços pode significar um nível mais elevado de inovação, mas também de risco.

A escolha do(s) local(is) deve ser pensada, considerando  comunidade e o  processo/produto, num exercício de equilíbrio entre expectativas, recursos e riscos.

Tempo

A qualidade de um projecto não dependerá apenas do tempo que a sua realização exija. Há projectos que ocorrem em poucas horas, outros que se desenvolvem ao longo de anos e muitos mais que se encontram algures neste contínuo. No caso do programa Terra a Terra, existe um período estipulado de 7 meses para a implementação dos projectos. Porém tal não dita necessariamente o seu fim, nem determina o número de horas que cada participante dedicará às actividades neste âmbito. O tempo final alocado para cada projecto, no âmbito deste programa, deverá ser definido, tanto quanto possível, em conjunto com a comunidade e sob orientação da equipa da OSF, em função dos objectivos das atividades, que devem ser claros e realistas, considerando o interesse e a disponibilidade dos participantes, as condições do local escolhido e os recursos disponíveis.

Como supramencionado, os pontos precedentes não pretendem ser descritores exaustivos referentes aos projectos de arte participativa, mas sim uma visão geral de alguns aspectos-chave, que podem ser combinados de diversas formas, cujo objectivo é meramente a orientação do planeamento inicial de projectos. Para mais informações sobre projectos de arte participativa, é possível consultar a bibliografia recomendada aqui.

Modelos de Acção em Comunidade

  • Modelo de Projecto I

    Título do Projecto Oficinas de Escuta
    Identificação do problema Ausência de espírito de pertença na comunidade alargada e de oportunidades de ouvir e pensar a música em conjunto.
    Cenário de intervenção Caracterizar a população de origem dos potenciais participantes, bem como explicitar o número de pessoas com as quais se pretende trabalhar, a faixa etária dos intervenientes, o acesso à oferta cultural local de que dispõem, os recursos materiais e humanos disponíveis e as necessidades observadas. Indicar a natureza da ligação prévia do/a participante relativa ao contexto, caso exista.
    Projecto e objectivos O projecto destina-se à promoção da democratização cultural através da auto-representação, propondo a formação de um grupo de adultos, aberto à participação de todos os residentes locais interessados, que se encontra com periodicidade regular para partilhar, analisar e debater a escuta de música escolhida em consenso pelos participantes. Estes encontros são organizados em formato de fórum musical, onde o artista profissional tem a função de mediador.
    Conhecer mais Peter Sellars em Art as Moral Action (conferência em 2019, University of Michigan)

  • Modelo de Projecto II

    Título do Projecto Arterapia
    Identificação do problema Escassez de oportunidades de expressão e de convivência para pacientes em contexto não-hospitalar.
    Cenário de intervenção Caracterizar os pacientes com os quais se pretende colaborar relativamente ao seu quadro clínico, à sua faixa etária, aos recursos materiais e humanos a que têm acesso e às necessidades observadas. Descrever o espaço onde se pretende realizar as sessões. Indicar a natureza da ligação prévia do/a participante relativa ao contexto, caso exista.
    Projecto e objectivos O projecto tem como objectivo organizar ateliers semanais de natureza musical (iniciação à expressão musical, escuta acompanhada, e pequenos concertos informais e dialéticos) para indivíduos ou grupos de pacientes em contexto não-hospitalar, a ter lugar em estúdios de arte ou espaços comunitários e não em contextos clínicos. Os ateliers visam providenciar experiências de convívio e oportunidades de expressão criativa, melhorando, assim, a qualidade de vida dos pacientes que participarem e permitindo-lhes um sentido de agência e de pertença a uma comunidade, que contrarie a situação de incapacidade e isolamento que os seus quadros podem implicar.
    Conhecer mais Programa de artes dinamizado pela organização Artlift.

  • Modelo de Projecto III

    Título do Projecto Preservação de Memória(s)
    Identificação do problema Perda progressiva da memória cultural colectiva de uma pequena comunidade rural isolada.
    Cenário de intervenção Caracterizar a comunidade quanto aos contornos da sua identidade cultural, à sua natureza (formal ou informal), ao(s) espaço(s) que partilham, ao número de membros, à sua faixa/distribuição etária, aos recursos materiais e humanos disponíveis e necessidades observadas. Indicar a natureza da ligação prévia do/a participante relativa ao contexto, caso exista.
    Projecto e objectivos O projecto tem como objectivo a documentação de memórias, interpretações e vivências culturais e musicais, dando voz àqueles cuja experiência merece ser preservada. A documentação será feita a partir da conversa gravada, que depois será transformada num podcast ou outro formato cuja permanência seja assegurada. Para além de ser um dispositivo de activação e preservação da memória, pretende fomentar o empoderamento e a valorização da multiplicidade de vozes e experiências dos interlocutores, que, de outro modo, se perderiam.
    Conhecer mais Trabalho de Lopes-Graça/Giacometti e projecto A Música Portuguesa a gostar dela própria.

  • Modelo de Projecto IV

    Título do Projecto Compositor(es) em Residência
    Identificação do problema Ausência de oportunidades de experiências musicais criativas e partilhadas, bem como de formação para as realizar.
    Cenário de intervenção Caracterizar as comunidades musicais com as quais se pretende colaborar relativamente ao(s) tipo(s) de organizações / instituições / associações que constituem ou integram, à faixa etária ou distribuição de idades dos intervenientes, ao nível de formação musical que já detêm, aos recursos materiais e humanos disponíveis e às necessidades observadas. Indicar a natureza da ligação prévia do/a participante relativa ao contexto, caso exista.
    Projecto e objectivos O projecto propõe a construção de uma composição colectiva por parte de comunidades musicais locais (coros, bandas, escolas de música, associações, etc.), facilitada e orientada pelo músico profissional, através da oferta de ateliers musicais e de composição, indo de encontro aos interesses de exploração e preservação da identidade da comunidade. Através desta experiência pretende-se o empoderamento e participação plena no processo de co-criação por parte de todos os intervenientes, reflexo da valorização do seu contributo para o resultado final.
    Conhecer mais Projecto da Orchestra di Piazza Vittorio

  • Modelo de Projecto V

    Título do Projecto Oficinas de Imaginação
    Identificação do problema Inexistência de ensino musical e/ou de oportunidades de exposição cultural neste âmbito, num contexto escolar ou de ATL.
    Cenário de intervenção Caracterizar o contexto escolar ou de ATL quanto ao local, número de crianças, faixa etária com a qual se pretende trabalhar, tipo de acesso à oferta cultural local, recursos materiais e humanos disponíveis e necessidades observadas. Indicar a natureza da ligação prévia do/a participante relativa ao contexto, caso exista.
    Projecto e objectivos O principal objectivo do projecto prende-se com a re-imaginação da música por parte das crianças que integram o contexto escolar acima descrito, através da construção ou re-configuração daquilo que é o instrumento musical comum. De forma complementar, o projecto visa a promoção de valores de expressão individual e colectiva, e acima de tudo, de curiosidade e liberdade em relação àquilo que pode ser a música.
    Conhecer mais Projectos Vegetable Orchestra e Do Lixo se Faz a Música

Directório de Projectos de Arte Participativa em Portugal

Há vários projectos de arte participativa em actividade no nosso país, abrangendo um amplo espectro de práticas e disciplinas, cuja acção tem alcançado e movido várias comunidades locais, contribuindo para o seu acesso e participação cultural. São exemplos disso as seguintes iniciativas:

Para além destes projectos específicos, aponta-se para o trabalho de organizações como Artemrede, Festival de Música de Setúbal, Terra Amarela, Acesso Cultura.

Automóvel Club de Portugal
Garrigues
Santander
Santa Casa Misericórdia de Lisboa
Vale da Estrela